Impostos
Simples Nacional ou Lucro Presumido: qual vale para o profissional da saúde?
Para quem trabalha sozinho na saúde, o Simples Nacional (Anexo III) costuma pagar menos até cerca de R$ 25 mil por mês; acima de R$ 30 mil, o Lucro Presumido (13,33% a 16,33% de impostos) pode empatar ou ganhar, principalmente com ISS baixo.
Escrito por Equipe adm.care
Publicado em · 13 min de leitura
Este artigo é o 2º de 14 do guia Impostos do profissional da saúde.
Simples ou Lucro Presumido: qual paga menos na saúde?
Para quem trabalha sozinho na saúde, o Simples Nacional (Anexo III) costuma pagar menos até cerca de R$ 25 mil por mês; acima de R$ 30 mil, o Lucro Presumido pode empatar ou ganhar.
Isso vale para quase todo enfermeiro, técnico de enfermagem, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, fonoaudiólogo ou terapeuta ocupacional que trabalha sozinho, em qualquer estado do Brasil. As regras da Receita Federal, do INSS e do Simples são federais e valem igual em todo o país. Com ISS baixo no seu município, o Lucro Presumido fica ainda mais perto. Mas a resposta certa depende de três números seus: quanto fatura, quanto tira de pró-labore e quanto a prefeitura do seu município cobra de ISS.
Regime tributário é a regra que define como a sua empresa (o CNPJ) calcula e paga os impostos. Só quem tem empresa escolhe regime. Quem recebe como pessoa física não escolhe nada disso. Explicamos essa parte no fim.
Os dois regimes, sem complicação
Simples Nacional
É o regime das pequenas empresas que faturam até R$ 4,8 milhões por ano, como diz o artigo 3º da Lei Complementar 123/2006. Você paga uma guia só por mês, o DAS, que junta os impostos federais, o INSS da empresa e o ISS da prefeitura.
Enfermagem, fisioterapia, psicologia, nutrição, fonoaudiologia e terapia ocupacional caem no Fator R (Lei Complementar 123/2006, artigo 18, parágrafos 5º-I, 5º-J e 5º-M, com a redação da Lei Complementar 155/2016): uma conta que divide a folha (o pró-labore, que é o “salário” do dono, mais salários de funcionários) pelo faturamento dos últimos 12 meses. Deu 28% ou mais, a guia sai pelo Anexo III, que começa em 6%. Deu menos, sai pelo Anexo V, que começa em 15,5%. Explicamos a conta inteira em o que é o Fator R.
A fisioterapia também depende do Fator R: está no inciso XVI do parágrafo 5º-B, e o parágrafo 5º-M, inciso I, a manda para o Anexo V quando a folha fica abaixo de 28% (Lei Complementar 123/2006). Veja quanto um fisioterapeuta paga de imposto.
Para refazer a conta, estas são as quatro primeiras faixas do Anexo III. A alíquota efetiva é (faturamento dos últimos 12 meses × alíquota − parcela a deduzir) ÷ faturamento dos últimos 12 meses.
| Faturamento dos últimos 12 meses | Alíquota | Parcela a deduzir |
|---|---|---|
| Até R$ 180.000 | 6% | R$ 0 |
| De R$ 180.000,01 a R$ 360.000 | 11,2% | R$ 9.360 |
| De R$ 360.000,01 a R$ 720.000 | 13,5% | R$ 17.640 |
| De R$ 720.000,01 a R$ 1.800.000 | 16% | R$ 35.640 |
Exemplo: com R$ 210 mil em 12 meses, a conta é (210.000 × 11,2% − 9.360) ÷ 210.000, cerca de 6,74%.
Lucro Presumido
Aqui o governo não olha o seu lucro de verdade. Ele presume (supõe) que o lucro de quem presta serviço é 32% do faturamento, como manda o artigo 15 da Lei 9.249/1995. Os impostos de renda da empresa são cobrados sobre esses 32%. Não existe Fator R: o pró-labore pode ser menor.
São quatro impostos federais e mais o ISS, cada um com a sua guia:
| Imposto | Como se calcula | Peso sobre o faturamento | Em R$ 10.000 |
|---|---|---|---|
| IRPJ (imposto de renda da empresa) | 15% sobre 32% do faturamento | 4,8% | R$ 480 |
| CSLL (contribuição sobre o lucro) | 9% sobre 32% do faturamento | 2,88% | R$ 288 |
| PIS | 0,65% do faturamento | 0,65% | R$ 65 |
| Cofins | 3% do faturamento | 3% | R$ 300 |
| ISS (imposto da prefeitura) | de 2% a 5%, conforme a cidade | 2% a 5% | R$ 200 a R$ 500 |
| Total | 13,33% a 16,33% | R$ 1.333 a R$ 1.633 |
As fontes: alíquotas de IRPJ e CSLL na Lei 9.249/1995 (artigos 3º, 15 e 20); PIS de 0,65% na Lei 9.715/1998; Cofins de 3% na Lei 9.718/1998; ISS entre 2% e 5% na Lei Complementar 116/2003 (artigos 8º e 8º-A). O ISS é da prefeitura: cada município define a sua alíquota dentro dessa faixa, por isso o valor depende de onde a sua empresa está. Quanto a sua cidade cobra está em quanto é o ISS do profissional da saúde.
Atenção a um detalhe: no Presumido, o INSS da empresa não está na guia. A empresa paga 20% sobre o pró-labore, além dos 11% descontados do dono (Lei 8.212/1991, art. 22, III, para os 20% da empresa; art. 30, § 4º, e Lei 10.666/2003, art. 4º, para os 11% do dono). No Simples, esses 20% já estão dentro do DAS.
A diferença que decide: o pró-labore
No Simples, quem está no Fator R (todos, inclusive o fisioterapeuta) precisa tirar pelo menos 28% do faturamento como pró-labore para ficar nos 6% do Anexo III. Sobre ele, paga 11% de INSS e, se passar de R$ 5.000 por mês, imposto de renda de pessoa física, que pode chegar a 27,5%.
No Presumido, você pode tirar um pró-labore pequeno e o resto como distribuição de lucros (o dinheiro que o dono tira como lucro, sem INSS). Até R$ 50 mil por mês, de cada empresa para cada sócio, esse lucro continua sem imposto de renda. Acima disso, há retenção de 10% desde 2026, pela Lei 15.270/2025. Essa regra vale para os dois regimes.
Por isso, com faturamento baixo, o Simples ganha com folga. Com faturamento alto, o pró-labore de 28% fica grande, o imposto de renda sobre ele pesa, e o Presumido se aproxima.
Quanto sai em cada regime: 5 exemplos
Os exemplos abaixo valem para quem está no Fator R: enfermeiro, técnico de enfermagem, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. Empresa de um dono só, sem funcionários, faturamento igual o ano todo. Somamos tudo o que sai por mês: guias da empresa, INSS e imposto de renda do pró-labore.
- Simples, Anexo III: pró-labore de 28% do faturamento (em R$ 5.000, pró-labore de R$ 2.000, que já passa dos 28%).
- Simples, Anexo V: pró-labore de R$ 2.000 (abaixo dos 28%).
- Presumido: pró-labore de R$ 2.000, com 20% de INSS da empresa e 11% do dono. ISS de 2% ou de 5%.
| Faturamento por mês | Simples Anexo III | Simples Anexo V | Presumido, ISS 2% | Presumido, ISS 5% |
|---|---|---|---|---|
| R$ 5.000 | R$ 520 | não se aplica | R$ 1.287 | R$ 1.437 |
| R$ 10.000 | R$ 908 | R$ 1.770 | R$ 1.953 | R$ 2.253 |
| R$ 17.500 | R$ 1.719 | R$ 2.995 | R$ 2.953 | R$ 3.478 |
| R$ 30.000 | cerca de R$ 4.650 | R$ 5.245 | R$ 4.619 | R$ 5.519 |
| R$ 60.000 | cerca de R$ 11.000 | R$ 11.095 | R$ 8.618 | R$ 10.418 |
Nos dois regimes, para tirar todo o lucro sem imposto, a empresa precisa de contabilidade completa (o contador fica mais caro). Os números acima já supõem isso.
Como chegamos a esses números
R$ 5.000 por mês. No Simples, a guia é 6%: R$ 300. Com pró-labore de R$ 2.000 (40% do faturamento, acima dos 28%), o INSS é R$ 220 e não há imposto de renda. Total: R$ 520. Como a folha passa dos 28%, o Anexo V não se aplica. No Presumido com ISS de 2%: R$ 667 de impostos mais R$ 620 de INSS do pró-labore. Total: R$ 1.287.
R$ 10.000 por mês. No Simples, a guia é 6%: R$ 600. O pró-labore de 28% é R$ 2.800, com R$ 308 de INSS. Sem imposto de renda, porque fica abaixo de R$ 5.000. Total: R$ 908. No Presumido com ISS de 2%: R$ 1.333 de impostos (a tabela acima) mais R$ 620 de INSS do pró-labore (R$ 400 da empresa e R$ 220 do dono). Total: R$ 1.953. O Simples sai mais de R$ 1.000 por mês mais barato.
R$ 17.500 por mês. O faturamento do ano (R$ 210 mil) já passou da primeira faixa do Simples, que vai até R$ 180 mil. A alíquota efetiva (a de verdade, depois da “parcela a deduzir” da tabela) fica em cerca de 6,74%: R$ 1.180. O pró-labore é R$ 4.900, com R$ 539 de INSS e ainda sem imposto de renda. Total: R$ 1.719. Repare que o Anexo V (R$ 2.995) e o Presumido com ISS de 2% (R$ 2.953) quase empatam: quem caiu no Anexo V por descuido paga o mesmo que pagaria no Presumido.
R$ 30.000 por mês. A guia do Simples vai a 8,6%: R$ 2.580. O pró-labore de R$ 8.400 paga R$ 924 de INSS e cerca de R$ 1.150 de imposto de renda. Total: cerca de R$ 4.650. O Presumido com ISS de 2% fica em R$ 4.619. Empate técnico. Com ISS de 5%, o Simples volta a ganhar.
R$ 60.000 por mês. A guia do Simples vai a cerca de 11%: R$ 6.630. O pró-labore de R$ 16.800 bate no teto do INSS (R$ 932 de desconto, pelo teto de R$ 8.475,55 de 2026) e paga cerca de R$ 3.450 de imposto de renda. O Presumido sai entre R$ 600 e R$ 2.400 por mês mais barato, conforme o ISS.
Esses números são uma conta de referência, não uma promessa. Mudam com a sua cidade, com funcionários, com despesas dedutíveis no seu imposto de renda e com meses de faturamento diferente. As faixas do Simples estão nos anexos da Lei Complementar 123/2006. A tabela do imposto de renda está na Lei 15.191/2025, e a redução para quem ganha até R$ 7.350 está na Lei 15.270/2025.
Quanto sai por mês em cada regime
R$ 520
R$ 1.287
R$ 908
R$ 1.953
R$ 1.719
R$ 2.953
cerca de R$ 4.650
R$ 4.619
cerca de R$ 11.000
R$ 8.618
Quando o Simples costuma ser melhor
- Faturamento até cerca de R$ 25 mil por mês. O pró-labore de 28% fica em até R$ 7 mil, com imposto de renda ainda moderado (cerca de R$ 760 por mês), e a guia fica entre 6% e 8% do faturamento.
- ISS alto no seu município. No Simples, o ISS vem dentro da guia, numa fatia menor que os 5% cobrados à parte no Presumido.
- Você quer contribuir mais para o INSS. O pró-labore maior também conta para a sua aposentadoria. Veja como o profissional da saúde contribui para o INSS.
- Você quer menos papelada. Uma guia por mês e menos declarações para o contador entregar.
Quando o Lucro Presumido pode valer a pena
- Faturamento alto e constante, em geral acima de R$ 30 mil por mês, com ISS de 2% ou 3%.
- Você não quer manter pró-labore alto e prefere tirar a maior parte como lucro.
- Clínica com estrutura própria. Alguns serviços com estrutura de hospital usam base de 8% em vez de 32% (Lei 9.249/1995, artigo 15, parágrafo 1º, inciso III, alínea “a”). Isso exige sociedade empresária e as normas da Anvisa, e raramente vale para quem atende sozinho em hospital ou home care. Pergunte ao contador antes de contar com isso.
E um aviso: para tirar como lucro sem imposto um valor maior que a base presumida, a empresa no Presumido costuma precisar de contabilidade completa. Isso deixa o contador mais caro e tira parte da vantagem. Veja quanto custa manter um CNPJ.
Outras diferenças que pouca gente conta
Retenção na nota
Quando a sua empresa está no Presumido, o hospital ou o home care costuma reter parte dos impostos federais na hora de pagar a nota. A Lei 10.833/2003 (artigos 30, 31 e 32) prevê 4,65% de PIS, Cofins e CSLL retidos, e deixa de fora as empresas do Simples. O valor retido não é imposto a mais: é um adiantamento que o contador abate depois. Mas o dinheiro chega menor. Entenda em por que o valor que caiu na conta é menor que o do plantão.
Escolha vale o ano todo
A opção pelo Simples é feita em janeiro e vale para o ano inteiro (Lei Complementar 123/2006, artigo 16). A do Presumido também vale o ano todo e é feita no pagamento da primeira guia do ano. Empresa nova tem prazo curto para pedir o Simples logo depois de aberta, e antes disso precisa estar com a inscrição na prefeitura do seu município em ordem; o tempo para conseguir essa inscrição muda de cidade para cidade. Ou seja: errou, só troca no ano seguinte. Faça a conta antes.
Empresas muito grandes pagam mais no Presumido desde 2026
A Lei Complementar 224/2025 aumentou em 10% a base presumida, mas só na parte do faturamento que passa de R$ 5 milhões por ano. Para quem trabalha sozinho, nada muda.
A reforma tributária
PIS e Cofins vão dar lugar à CBS, e o ISS ao IBS, aos poucos. A conta entre Simples e Presumido vai mudar nos próximos anos, e quem contrata você pode passar a olhar o seu regime. O que já está decidido está em o que a reforma tributária muda para enfermeiro, fisioterapeuta e psicólogo.
E o MEI?
MEI não é opção para enfermeiro, técnico de enfermagem, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista e fonoaudiólogo, porque essas atividades não estão na lista do MEI. Veja enfermeiro pode ser MEI?, fisioterapeuta pode ser MEI?, psicólogo pode ser MEI? e nutricionista pode ser MEI?. O técnico de enfermagem pode ter empresa comum, com um enfermeiro como responsável técnico: veja técnico de enfermagem pode abrir empresa?.
Como decidir, em 5 passos
- Some o que você vai faturar no ano, por notas, não por estimativa otimista.
- Descubra o ISS do seu município para o seu serviço, na prefeitura ou com o contador. Pela lei, fica entre 2% e 5%, e cada cidade escolhe o seu.
- Faça a conta do Anexo III: guia + INSS de 11% e imposto de renda sobre um pró-labore de 28%. Use o atalho: faturamento × 0,28.
- Faça a conta do Presumido: 11,33% de federais + ISS + 31% de INSS sobre o pró-labore que você tiraria.
- Peça ao contador as duas contas por escrito, com o custo dele em cada regime, antes de janeiro. Se ele não souber explicar, veja como trocar de contador.
Quanto tirar de pró-labore no Simples está em quanto de pró-labore o fisioterapeuta ou psicólogo PJ deve tirar. O quadro por profissão está em quanto um psicólogo paga de imposto, quanto um fisioterapeuta paga de imposto, quanto um nutricionista paga de imposto e quanto um enfermeiro paga de imposto.
Como decidir entre Simples e Presumido
- Some o faturamento do anoPelas notas, não por estimativa otimista.
- Descubra o ISS do seu municípioFica entre 2% e 5%, e cada cidade escolhe o seu.
- Faça a conta do Anexo IIIGuia + INSS de 11% e imposto de renda sobre um pró-labore de 28% do faturamento.
- Faça a conta do Presumido11,33% de federais + ISS + 31% de INSS sobre o pró-labore.
- Peça as duas contas por escritoAo contador, com o custo dele em cada regime, antes de janeiro.
E se você ainda não tem empresa?
Antes de abrir um CNPJ só para escolher regime, some o resto: contador todo mês, pró-labore com INSS, registro da empresa no conselho regional da sua profissão (Coren, Crefito, CRP, CRN ou CRFa, com anuidade que muda de estado para estado) e taxas da prefeitura, que dependem do seu município. Com R$ 5.000 por mês, só o contador (a partir de cerca de R$ 300 por mês) e o INSS do pró-labore (R$ 220) já passam de R$ 500 por mês, mais as taxas locais e a guia. Nessa faixa, a pergunta não é qual regime, e sim se vale ter empresa. Veja quanto custa manter um CNPJ, cooperado, RPA, PJ ou associado, CLT ou PJ na saúde, como abrir empresa na área da saúde, e quando não precisa abrir e quais impostos o profissional da saúde paga como autônomo ou PJ.
Na adm.care, empresa do grupo adm.doctor, quem entra como associado não abre empresa, não escolhe regime e não vigia Fator R. O nosso time emite a nota fiscal para o seu hospital, home care ou laboratório, desconta os impostos e as taxas antes do PIX e manda o valor líquido para a sua conta pessoal. No app, você vê o valor bruto, quanto saiu de impostos e taxas e quanto sobrou. Veja como funciona e como contratar, sem taxa de adesão e sem multa para sair.
Já tem empresa própria e fatura bem acima disso? Manter o CNPJ pode sair mais barato, e aí vale ficar com ele. Na dúvida, fale com a gente para ver o que faz sentido no seu caso. Mais respostas em perguntas frequentes.
Fontes oficiais
- Lei Complementar 123/2006 (Simples Nacional)
- Lei 9.249/1995 (IRPJ e CSLL no Lucro Presumido)
- Lei 9.715/1998 (PIS)
- Lei 9.718/1998 (Cofins)
- Lei Complementar 116/2003 (ISS)
- Lei 8.212/1991 (contribuições ao INSS)
- Lei 10.666/2003
- Lei 10.833/2003 (retenção na fonte)
- Lei 15.270/2025
- Lei 15.191/2025 (tabela do imposto de renda)
- Lei Complementar 224/2025
- INSS: teto de R$ 8.475,55 em 2026
